Um pouco do azul, um tanto de cinza

Friday, June 6

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.

Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral,
a comum aquiescência de viver
e explorar os rumos de obscuridade,
sem prazo, sem consulta; sem provocação,
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora. Teu ponteiro enloqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar ...
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso,
voz modulando sílabas conhecidas e banais,
que eram sempre certeza e segurança.
.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto
nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade

Resposta a Drummond...
Desculpa minha ausência, desculpa a quebra, mas não desculpe o pacto.
Quebrei-o inesperadamente, enlouquecidamente, imprevisivelmente.
Decisões momentâneas, fugindo de leis, fugindo do "certo", não seria eu se não fosse assim.
O ponteiro enlouqueceu as horas, rápidas, sem dó nem piedade.
A ausência, dolorida, fez-se necessária, mas trouxe e traz sempre outras possibilidades, novos tempos, palavras, pactos a serem feitos e/ou rompidos...
Não culpo-me, quem há de se culpar? Nem você Drummond, poderia viver sem abandonar e quebrar pactos.
Tudo se move mais lento agora, a ausência é certa, não sei se hoje intransponível, mas necessária.
Um abraço...
Ausente