Um pouco do azul, um tanto de cinza

Wednesday, November 12

Homenagem póstuma...



“Bem como dizia o comandante, doer, dói sempre. Só não dói depois de morto, porque a vida toda é um doer.

O ruim é quando fica dormente. E também não tem dor que não se acalme – e as mais das vezes se apaga. Aquilo que te mata hoje amanhã estará esquecido, e eu não sei se isso está certo ou errado, porque o certo era lembrar. Então o bom, o feliz se apagar como o ruim, me parece injusto, porque o bom sempre acontece menos e o mau dez vezes mais. O verdadeiro seria que desbotasse o mau e o bom ficasse nas suas cores vivas, chamando alegria.

Pensei que ia contar com raiva no reviver das coisas, mas errei. Dor se gasta. E raiva também, e até ódio. Aliás também se gasta a alegria, eu já não disse?

Embora a gente se renove como todo mundo, tudo no mundo que não se repete jamais – pode parecer que é o mesmo mas são tudo outros, as folhas das plantas, os passarinhos, os peixes, as moscas.

Nada volta mais, nem sequer as ondas do mar voltam; a água é outra em cada onda, a água da maré alta se embebe na areia onde se filtra, e a outra onda que vem é água nova, caída das nuvens da chuva. E as folhas do ano passado amarelaram, se esfarinharam, viraram terra, e estas folhas de hoje também são novas, feitas de uma seiva nova, chupada do chão molhado por chuvas novas. E os passarinhos são outros também, filhos e netos daqueles que faziam ninho e cantavam no ano passado, e assim também os peixes, e os ratos da dispensa, e os pintos... tudo. Sem falar nas moscas, grilos e mosquitos. Tudo.�

Dôra, Doralina

Rachel de Queiroz



Sei que já é meio tarde, mas eu não poderia deixar de homenagear a Rachel de Queiroz, uma grande escritora, uma grande lutadora e sofredora. Uma mulher que tinha amor ao que era seu, sua terra, sua gente, que cresceu, e levou consigo o Ceará, refletido em palavras, em cada um de seus personagens fortes, em cada encontro e desencontro da vida de quem ela deixava viver.
Ela teria que ser a primeira, teria que abrir caminhos, abrir caminhos com palavras, sonho de todo jornalista e escritor. Ela sabia mais ser clara ao ser sutil, ela sabia falar de amor, falando de sofrimentos. Ela criou e foi criada para ser imortal. E assim ela será, imortal. Dizias "Não me deixes" mas já que assim tiveras que ir, fostes de mansinho, calada, pois não precisava falar mais nada.
Dôra... um livro que seria uma obrigação de vestibular e virou uma lição de vida... boas surpresas de bons tempos.